A dignidade que vem do lixo

ONG Olimpo de São Pedro de Alcântara dá oportunidade de trabalho a dependentes químicos que transformam resíduos em adubo orgânico
Por Marcos Heise

Florianópolis (SC) - Romário achou que tinha um futuro promissor na vida como jogador de futebol. Bom de bola desde garoto, graças a suas habilidades, virou até personagem de uma reportagem exibida no programa de TV Fantástico (Rede Globo) e foi admitido nas categorias de base do Avaí Esporte Clube. Até os 14 anos tudo ia bem. Só que ele foi dispensado do clube e influenciado por novas e más companhias, conheceu as drogas, primeiro como vendedor e entregador (fazendo o que no linguajar do tráfico são chamados de ‘corres’) depois como usuário e dependente. Afundou no vício com uso de cocaína, maconha e crack. Foi preso, levou facada e foi ameaçado de morte por traficantes aos quais devia pelo consumo não reposto. Romário teve que sair da favela onde morava com a mãe para não ser morto e foi parar nas ruas.

Hoje, com 25 anos, Romário é um dos acolhidos da Associação de Pais e Amigos Olimpo, uma organização não governamental localizada em São Pedro de Alcântara, município que faz parte da Grande Florianópolis. A fonte de subsistência da entidade é aquilo todo mundo se acostumou a chamar de lixo. Quer dizer, é o resíduo orgânico recolhido junto às lojas de supermercados parceiros e que se transforma em adubo pelas mãos de pessoas como Romário, um dos internos abrigados na Associação Olimpo e que consegue vislumbrar neste trabalho perspectivas de um futuro diferente para suas vidas.

A Associação de Pais e Amigos Olimpo tem mais de 15 anos de atuação voluntária como agente transformadora de pessoas em alto grau de vulnerabilidade social, moradores de rua em sua grande maioria com dependência química por causa do consumo de drogas.



VOLUNTARIADO

Esta entidade tem como principal sustentação o trabalho voluntário de Edison Miranda, um profissional formado em Enfermagem com pós-graduação em dependência química pela na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ele é um aposentado que retornou à ativa e coordena as atividades da ONG Olimpo, com apoio de um assistente social e de monitores.

O abrigo já atendeu cerca de 1.800 pessoas até hoje, pelas contas aproximadas de Edson, todas do sexo masculino e que são encaminhadas pelo serviço social de prefeituras da região. São entre 15 e 25 internos que cumprem uma permanência variável de três a sete meses, na média.

- Eles chegam aqui em situação de risco e fragilizados em todos os sentidos, somente com a roupa do corpo; ganham alojamento, alimentação, tratamento e fazem uma atividade profissional inserida no processo de recuperação, que é a compostagem do resíduo orgânico. Para nossa satisfação, cerca de 90% permanecem até o tratamento se completar– detalhou Edison.

CONEXÃO LIXO ZERO

Essa conexão entre a ONG Olimpo e a possibilidade do processamento de lixo orgânico aconteceu através do Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB) e da Associação Catarinense de Supermercados (Acats), que no ano de 2010 começaram a promove um evento de caráter internacional, o Fórum Internacional Lixo Zero, destinado a divulgar e a potencializar práticas sustentáveis através do correto encaminhamento de lixo.

Na esteira deste evento, a Acats colocou em prática um programa pioneiro no País, o Supermercado Lixo Zero 2020, que tem o compromisso de alcançar 100% da destinação correta dos resíduos nas lojas de supermercados associados em Santa Catarina. Segundo o Presidente do Instituto Lixo Zero Brasil, Rodrigo Sabatini, o ineditismo deste programa vai ainda mais longe.

- Até onde se conhece tudo o que foi feito em termos de lixo zero em todo o planeta até aqui, temos uma ação que pode ser considerada pioneira no mundo: o fato de uma entidade de classe ter assumido este compromisso publicamente. É um fator de orgulho para nós catarinenses – afirmou.

Assim que se tornou parceiro do Programa Lixo Zero da Acats, o projeto social da ONG Olimpo passou a trabalhar com redes de supermercados, fazendo a coleta e a transformação do material orgânico.

Funciona assim: o programa recolhe e beneficia o resíduo orgânico dos supermercados que integra o Programa Supermercado Lixo Zero, da Associação Catarinense de Supermercados (Acats) que se transforma em adubo pronto para comercialização.

- Além de estar se mantendo com os recursos que recebe pelo pagamento dos serviços de recolhimento e transporte do material, a ONG Olimpo está produzindo e empacotando um adubo de excelente qualidade resultante da compostagem – garante o Diretor executivo da Associação Catarinense de Supermercados (Acats), Antonio Carlos Poletini, coordenador e executor do projeto junto a esta entidade.

Poletini chama a atenção para dois aspectos conciliatórios muito fortes neste projeto.

- Temos a questão ambiental, em que cerca de 200 toneladas/mês de resíduos deixam de ser colocadas em aterros sanitários, material que recebe tratamento para se transformar em adubo. Ao mesmo tempo, esta atividade gera trabalho para os dependentes químicos e os recursos capazes de auxiliar na manutenção do projeto social. É um ciclo virtuoso que tem múltiplos desdobramentos, todos eles favoráveis, principalmente essa questão social inserida no contexto ambiental – garante o dirigente.

NOVO DESAFIO

Agora o projeto precisa ter continuidade, avançar em termos de resultados, segundo Edson. A entidade mantém um volume de cerca de 4 mil toneladas de material que pode se transformar em adubo, mas depende de novos equipamentos, basicamente um triturador e um misturador para profissionalizar e ganhar produtividade no processo. Segundo ele, com investimento de cerca de R$ 80 mil, a ONG Olimpo seria capaz de produzir 4 mil sacos de 1 kg de adubo orgânico a cada dia, prontos para comercialização.

- Temos todas as licenças ambientais encaminhadas junto à entidade estadual reguladora (Fatma/SC), bem como o enquadramento de documentação legal junto aos demais órgãos públicos. Caso possa atuar dentro deste objetivo acreditamos que será possível gerar 50 oportunidades de trabalho para dependentes químicos, mais do que dobrando a atual demanda – reforça o voluntário Edson.

Sem a utilização destes equipamentos que precisam ser adquiridos, o processamento leva muito mais tempo e perde-se produtividade. Uma tonelada de resíduo compactado em formato de “sanduíche” pode levar até 6 meses para chegar ao final do processo e se transformar em adubo, com redução de 70% de peso, ou seja, os 1.000 quilos de resíduo se transformam em 300 quilos de adubo.

REPERCUSSÃO INTERNACIONAL

A repercussão do trabalho já é internacional.  A norte-americana Tracie Bills (SCS Engineers, Califórnia) participou como palestrante do IV Fórum Internacional Lixo Zero, promovido todos os anos pela Associação Catarinense de Supermercados (Acats) e pelo Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB). Ela aproveitou a vinda e conheceu o projeto social da Associação Olimpo. Ficou encantada.

- Meu objetivo com a vinda até aqui era de ensinar processos que dominamos nos Estados Unidos, mas confesso que acabei vindo muito mais é aprender com isso que vocês realizam aqui de forma pioneira e admirável – disse ela na oportunidade.

O Presidente do Instituto Lixo Zero Brasil, Rodrigo Sabatini, revelou que ela já apresentou este case em oito congressos internacionais mundo afora, sempre com muito sucesso. Só este ano foram quatro apresentações, uma delas no Fórum da WRF em Davos na Suiça.

- São as práticas bem sucedidas aqui em Santa Catarina que ganham repercussão internacional através dos congressos e isso é muito positivo – comemora.

O próprio Edison Miranda teve a oportunidade de vivenciar a apresentação do case no exterior. Ano passado ele acompanhou uma comitiva do Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB)  para os Estados Unidos com objetivo de visitar projetos sustentáveis e participar de eventos.

A última intervenção de Tracie Bills foi na conferência anual da California Resource Recovery Association (CRRA) uma das mais tradicionais entidades dedicadas a causas sustentáveis dos Estados Unidos, fundada em 1974, onde o case da conexão Supermercado Lixo Zero & Olimpo foi apresentado.

O Presidente da Associação Catarinense de Supermercados (Acats), Atanázio dos Santos Netto, destaca que um "grande esforço está sendo feito pelas redes supermercadistas catarinenses que integram o Programa Supermercado Lixo Zero visando não só o atendimento a novas regras de legislação como também o desenvolvimento de ações que impactam sobremaneira no âmbito social, como por exemplo, a compostagem dos resíduos orgânicos, cujo produto final é um adubo de excelente qualidade, mas também gera oportunidades de trabalho para usuários dependentes químicos”.

Uma das redes de supermercados catarinenses mais conectadas ao projeto é a Rede Angeloni, a maior de Santa Catarina e a décima segunda do ranking brasileiro com 27 lojas em Santa Catarina e no Paraná. O gerente do Supermercado Angeloni, Gilberto Nascimento, apresentou os resultados do projeto piloto de lixo zero implantado na empresa. Com o gerenciamento de resíduos, a rede de supermercados conseguiu reduzir em torno de 20% dos custos operacionais de cada unidade.

- Quebramos o paradigma de que gerenciar resíduos é mais caro que apenas descartar.

SONHOS

Voltando ao abrigo da ONG Olimpo tem-se a história de outro abrigado, Augusto, 33 anos, também morador de Florianópolis, e que está pouco mais de um mês internado como dependente de álcool, cocaína e crack. Pai de duas filhas (8 anos e uma bebe de 3 meses), ele sonha em transformar seu futuro através desta permanência na associação.

Outro caso é de Ismael, também com 33 anos, pai de um garoto de 12 anos. Seu passado indica uns dez anos “nessa vida”, com 14 passagens pelas prisões por furto e tráfico. Ele já cumpriu pena e várias internações. Ismael tem uma certeza.

- Isso aqui tem que dar certo, não tem meio termo, a gente precisa acreditar.

Os dois são colegas de Romário, que hoje avançou no seu processo de recuperação. Ganhou status de monitor na Olimpo, o que lhe dá direito a uma ajuda extra de custo e está estudando para completar o ensino fundamental, interrompido na infância.

Com especialização de tratamentos em dependência química, Edison Miranda dá a receita do sucesso na organização.

- Aqui temos um local aberto, sem grades ou cercas. Eles podem sair se e quando quiserem, mas permanecem porque são bem tratados, com respeito e mediante bom comportamento e obrigações normais de rotinas de trabalho.

Segundo Edison, o fato deles trabalharem com o processamento do que a Sociedade chama de lixo confere um grau excepcional de valor a esta atividade.

- Como moradores de rua eles conviveram com o lixo o tempo todo, são catadores e receberam olhares de rejeição por parte das pessoas. Aqui dentro eles são tratados com dignidade e compreendem que aquilo que é rejeitado como o lixo pode se transformar em algo bom, que é o adubo orgânico, e que vai ser semeado e dar muitos frutos. Mais ainda, eles percebem e assimilam estes conceitos, tudo isso associado a uma conduta sustentável.

Edison Miranda sonha mais alto. Depois de consolidar a compostagem e o processamento de adubo orgânico na Associação Olimpo, ele quer levar os fundamentos deste projeto para entidades governamentais e fazer com que trabalhos semelhantes sejam feitos em outras regiões do estado.

- Temos esta parceria com a Associação Catarinense de Supermercados (Acats) e o Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB) como um trabalho reconhecido e viável a um investimento baixo e um retorno socioambiental muito favorável. O retorno comprovado é uma garantia de certeza de sucesso - afirmou.

APRESENTAÇÃO

O contexto da parceria entre a ONG Olimpo e o Programa Supermercado Lixo Zero ganhou espaço na programação de outro evento, o V Fórum Internacional Varejo Lixo Zero, realizado no dia 27 de outubro de 2015, em Florianópolis, com a participação de mais de 100 empresários, gestores, autoridades e supermercadistas, oportunidade em que o case foi novamente apresentado.

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